Hiroko Egashira Matsuda, filha primogênita de Sueichi Egashira e de Tomeko Egashira, ambos provenientes de províncias do sul do Japão. Descendente de imigrantes japoneses – Nikkei.
Seu pai, Sueichi Egashira, imigrou do Japão ainda jovem e solteiro, apenas acompanhado por tios e parentes. Dotado de espírito desbravador e aventureiro, não tinha a intenção de retornar ao Japão, e sim, de fixar residência no Brasil.
Quando chegou ao Brasil, Sueichi conheceu Tomeko, e logo, desposou a jovem japonesa, e juntos, empenharam-se para aprender rapidamente a tão estranha língua portuguesa e os costumes da nova terra.
Das núpcias nasceram seis filhos: dois homens e quatro mulheres. Os nomes dos irmãos eram:
O casal Sueichi e Tomeko trabalharam na lavoura e no comércio, primeiro trabalhando como ajudante num distribuidor alimentício, no município de Pereira Barreto, interior do Estado de São Paulo, e depois, montou seu próprio empório em Araçatuba, interior do Estado paulista.
Hiroko Egashira nasceu em Pereira Barreto, no dia 31 de janeiro de 1940, interior do Estado de São Paulo.
Desde muito pequena, Hiroko apresentou uma infância muito difícil, com a incumbência de cuidar dos irmãos menores, da casa e ainda ajudar na pequena mercearia de secos e molhados da família, onde trabalhavam seus pais, para o qual ela entregava as mercadorias aos clientes de bicicleta. Durante um período longo, seu pai ficou acamado, cabendo à sua mãe e a ela própria, a administração do negócio e da casa da família. "Mas eu queria estudar”, era o que Hiroko desejava.
Hiroko viveu a infância e a sua juventude em Araçatuba junto com a família, até sair de casa para estudar e se formar em pedagogia em São Paulo.
Tornou-se excelente educadora, orientadora e administradora escolar, especializada em adolescentes. Como tinha habilidade, pulso e ao mesmo tempo entendia os jovens em tão difícil época da vida! Ganhava respeito e admiração dos adolescentes pelo jeito com que conseguia tratá-los, compreendê-los e encaminhá-los vida afora
Iniciou sua carreira de professora na cidade de Ourinhos, interior do Estado de São Paulo, no início da década de 1960, onde morou e lecionou nos primeiros anos de sua vida profissional.
Hiroko casou-se em 09 de julho de 1965, com Matsuda Hozumi em Araçatuba, São Paulo, e com quem teve dois filhos: Ana Paula, a primogênita, nascida em 1968, e Adriano, três anos depois, em 1971. Cada um lhes deu dois netos: Fabio, Eric, Mark e Sarah.
O esposo Matsuda Hozumi foi linense de nascimento e coração.
Após casada, mudou-se para São Paulo e participou de uma experiência inovadora na Escola Industrial Guaracy Silveira, em Pinheiros, São Paulo – o início das escolas profissionalizantes do Estado, ocorrido em 1965.
Mais tarde, trabalhou junto à Diretoria de Divisão de Currículo e Supervisão da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
Sua filosofia de vida era sempre aperfeiçoar-se, desafiar-se e acumular conhecimentos. Com determinação, estudou muito e foi aprovada no concurso para administração escolar.
Hiroko foi Presidenta do Cooperativa Atlético Clube, Distrito Bandeirante do Clube Coopercotia. Dedicou muitos anos de sua vida ao Movimento do Grupo de Escoteiros - (Escotismo), do qual foi instrutora de jogos, com apresentação em várias cidades paulistas. Participou da organização de eventos e atividades sociais no Cooper Clube, situado no Parque Ipê, em São Paulo, local que frequentou assiduamente todos os finais de semana, atuando voluntariamente em diversos eventos.
Hiroko manteve contato com o Professor Adolfo Lemes Gilioli, Presidente e Fundador do Instituto Cultural Universitário “A Tocha” ICUAT - (1946), e deste modo, ministrou no Curso de Oratória.
No Centro Educacional Harmonia, a gestão de Hiroko foi no período de 1996 a 2009. Encontrou a escola em situação administrativa, financeira e pedagógica ruim, quase falida. Entretanto, Hiroko aceitou o desafio pedagógico e administrativo, conseguindo restabelecê-la com êxito. Foram treze anos como Diretora, em São Bernardo do Campo, São Paulo, instituição educacional fundada e mantida por nipo-brasileiros. Hiroko amava ser educadora, não se esmorecia facilmente e enfrentava os problemas de trabalho. Era excelente líder e habilidosa em laborar com equipes de trabalho.
Conforme disse Hiroko, “Foram os melhores momentos da minha vida. Lá, aprendi a ser humilde, a admirar pessoas simples, cujos objetivos primeiros eram sempre servir ao próximo e. principalmente, às nossas crianças”
Dedicou-se integralmente a expansão deste estabelecimento de ensino, que conseguiu o renome de colégio modelo "Eu era sempre a última a ir embora.", em uma região industrial do Estado de São Paulo, parte da Região Metropolitana de São Paulo, o ABC paulista. Hiroko morava no Bairro Butantã, e entre a ida e a volta, ao Bairro de São Bernardo do Campo, dirigia 55,4 quilômetros por dia para trabalhar.
Anterior a sua gestão, “Hiroko foi convidada a ocupar o cargo por alguns de seus colegas: Yutaka Watanabe, Hidharu Sato, Fumiaki Uemura e Carlos Matsuno que eram membros da Diretoria do Harmonia”.
O Centro Educacional Harmonia acolhe crianças, desde a pré-escola até o ensino médio, com forte presença da cultura japonesa, inclusive no ensino da língua.
Com o passar do tempo, e diante do diagnóstico inesperado e inexplicável de que era portadora do Mal de Alzheimer, Hiroko foi afastada de suas funções e retirou-se em 2009, do Centro Educacional Harmonia, aos 69 anos de idade, interrompendo sua gestão bem-sucedida na instituição.
Hiroko Egashira Matsuda fundou a vaga da cadeira 11, da Academia Linense de Letras, em Lins, cujo Patrono é Teisuke Kumasaka, artista plástico, fotógrafo e escultor. Tomou posse no dia 27 de março de 2010, mas por motivos de saúde, o mal de Alzheimer, foi sucedida por Cauê Garcia Soares em 18 de agosto de 2012.
Portadora do Mal de Alzheimer,Hiroko morou durante dez anos na Casa de Repouso Recanto das Flores, no Bairro Butantã, em São Paulo, onde recebeu atenção, carinho e dedicação diários de muitos profissionais de saúde, dos colegas e amigos de casa, Também de toda família Matsuda, que se lembraram de seus feitos, do seu espírito alegre e da eficiência e empenho com que conduziu firme e forte, e dirigiu tudo a que se propôs na vida...
Educadora de vocação, com enorme coragem, força e determinação. Possuía espírito livre, curioso e de líder nato.
Hiroko era eterna aprendiz, conquistou tudo a que se propôs na vida: amor, família, carreira, enfim... viveu intensamente o tempo que lhe foi permitido. Foi uma mulher à frente de sua época.
Em 2011, foi publicado o livro: “Associação Harmonia de Educação e Cultura, 60 anos. Colégio Harmonia, 20 anos”. Com mais de 2.100 exemplares, em homenagem a todos que trabalharam na instituição educacional durante décadas.
Hiroko Egashira Matsuda faleceu em 31 de dezembro de 2021, com 81 anos, em São Paulo. Causa da morte: Mal de Alzheimer. Hiroko foi cremada em Embu das Artes.
Depoimento da filha Ana Paula sobre atividades de Hiroko.
No início de 2010, a filha estava pintando o novo apartamento, e Hiroko quis ajudá-la e participar de alguma forma, desta nova etapa da vida de sua primogênita. O imóvel sem mobília ainda, todo forrado, estava prestes a receber muitas camadas de tinta branca num mesmo pedaço de parede da sala. O Alzheimer tinha levado parte da memória da Hiroko, mas não levou o seu espírito de cooperação, de compreensão e acolhimento tão peculiar, uma vez que passou o dia passando o rolo no mesmo pedaço de parede que lhe foi confiado. Molhava o rolo de cabo comprido na tinta, numa bandeja apoiada no chão no meio da sala, de costas para a parede e quando se voltava para ela novamente, não se lembrava até onde havia pintado. Alegremente passava o rolo sempre no mesmo local, que ainda tinha o brilho da camada anterior de tinta. A filha, por vários instantes, parou para observar a leveza e a dedicação com que ela trabalhava e como se empenhava. Sempre com expressão sorridente, com respingos de tinta no rosto, cabelos e óculos, realizava a tarefa que lhe fora dada, sem ter a mínima ideia do que fazia ali e para quê. De meio em meio giro, do voltar da bandeja do chão à parede, a memória lhe faltava, mas o coração não. Esta é uma das imagens que mais representa o espírito desta mulher que mesmo doente, ainda ensina tanto a quem dela se aproxime.
A notícia foi recebida com muito mais surpresa e inconformidade pela família do que por ela própria. Como não houve escolha para ela, simplesmente aconteceu.
A aceitação das pessoas a sua volta foi gradual, cada um a seu próprio tempo e forma, mas todos aprenderam muito com esta educadora de vocação.
Hiroko recebeu muito carinho, gratidão, muita atenção e bons sentimentos por parte dos seis irmãos (dois homens e quatro mulheres), que reconheceram toda a sua enorme dedicação para todos eles, desde a infância até que completassem os seus estudos universitários, e assim, seguirem com autonomia nas suas escolhas profissionais e pessoais.
Nesta mesma época, talvez uns seis meses antes, não passou despercebido o episódio tão singelo quanto marcante que denotou o tipo de relacionamento que Hiroko tinha, e ainda mantém com o marido, Hozumi.
Era uma tarde de domingo ensolarado, aproximadamente umas quinze horas. A janela aberta com as cortinas esvoaçantes tornava o ambiente agradável e fresco. Filhos e netos podiam desfrutar do som das risadas e conversas leves que ecoavam pela casa vindas do quarto do casal... sim... um casal que logo completaria 50 anos de convivência, cumplicidade, respeito e muito amor e que ainda conversava e sorria, interagindo, mantendo a chama acesa, comunicando-se, preenchendo-se mutuamente, numa bela tarde de domingo, sentados na cama, sem nem se importar com a presença cada dia mais marcante do Sr Alzheimer entre eles. Que melhores exemplos poderiam dar a seus descendentes? Nada além desta intimidade de almas.
Os tempos verbais desta narrativa oscilam propositalmente entre presente e passado numa mescla entre o ser e o fazer, entre o atuar e o observar, entre o estar e o acontecer.
Talvez hoje, Hiroko não saiba o que fez, aconteceu, produziu e não se lembre das pessoas para quem ela foi tão marcante. O que importa é que todos nós sabemos e reconhecemos que Hiroko foi, é, e sempre será um ser humano extraordinário.
