Ocupar a Cadeira n. 26 da Academia Linense de Letras não é, para mim, um exercício de vaidade, mas um compromisso de escuta. Desde a fundação desta Casa, quando escolhi a responsabilidade de honrar o legado de Mario Quintana, compreendi que a imortalidade acadêmica nada tem a ver com o mármore frio das estátuas, mas com a permanência do afeto através da palavra.
Como cronista há vinte e cinco anos, habituei-me a buscar o extraordinário no comum. E é exatamente aí que encontro Quintana. Meu patrono foi o poeta das "coisas simples", aquele que nos ensinou que "o passado não volta, e o que voltou de fato é o presente que se esqueceu de ir embora". Gaúcho de Alegrete, que fez dos quartos de hotel em Porto Alegre seu castelo de observação, Quintana viveu a literatura como quem respira: sem alarde, mas com absoluta necessidade.
Curiosamente, o homem que escolhi como patrono da cadeira 26 da Academia de Letras Linense, nunca foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Após três tentativas infrutíferas, ele nos presenteou com a maior lição de elegância literária ao escrever o "Poeminho do Contra": “Todos esses que estão aí / Atravancando meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!”. Essa essência "passarinha", que voa sobre as burocracias do mundo para pousar no coração do leitor, é o que tento imprimir em cada linha que publico nas minhas crônicas semanais.
Fazer parte de uma Academia de Letras, especialmente em nossa querida Lins, é manter acesa a fogueira da resistência cultural. Em um tempo de conexões efêmeras e textos de leitura enviesada, a Academia se ergue como um espaço de salvaguarda. É aqui que a memória da cidade se encontra com a universalidade da literatura, com a importância das letras, da educação por meio da cultura.
Os integrantes da ALL, assim, desempenham o papel de zelar pelo idioma,mas não como uma estrutura rígida e sim como um organismo vivo que traduz a identidade da língua portuguesa. Da mesma forma, os confrades e confreiras devem fomentar o diálogo, unindo gerações de escritores e leitores em torno do livro e da troca de saberes. Honrar a tradição, lembrando de que, antes de nós, vozes como a de Quintana e tantos outros, abriram caminhos para que hoje pudéssemos valorizar os espaços de leitura, é, talvez, uma das grandes missões de cada integrante desta Caso do Saber.
Ao olhar para a cadeira n. 26, sinto que a crônica e a poesia se dão as mãos. Quintana dizia que "a arte de viver é simplesmente a arte de conviver". Integrar esta Academia é, acima de tudo, celebrar essa convivência entre o ontem e o hoje, entre o patrono e a acadêmica, garantindo que a literatura continue sendo o espelho onde nossa cidade se reconhece e se orgulha. Afinal, se a vida é um dever que trouxemos para fazer em casa, escrever — seja no jornal ou no silêncio da farda acadêmica — é a nossa forma mais bonita de não deixar o tempo passar em vão.
