Fábula
A penumbra da madrugada sobre o mármore sintético da bancada da cozinha delimitava o cenário de uma abundância grotesca e febril. Para a colônia de baratas que habitava os vãos escuros atrás dos armários planejados, aquela noite representava o ápice de sua soberania alimentar. O esquecimento humano havia deixado sobre a pia uma bandeja de alumínio untado, coberto com os restos de um bolo de cenoura transbordando em calda de chocolate concentrado. Movidas por antenas frenéticas e pelo instinto cego da sobrevivência imediatista, dezenas de cascudas rompiam as frestas do azulejo, marchando em uma massa escura e brilhante em direção ao banquete de glicose. A crueza da cena impunha-se no ruído seco de suas patas firmes raspando o metal, e na voracidade com que suas mandíbulas mastigavam os cristais de açúcar, imersas em uma satisfação biológica alienante e renunciada.
Enquanto mergulhavam na espessura do doce, aquelas criaturas operavam sob a ilusão do controle absoluto do espaço. O melado que grudava em seus ventres era encarado como o ápice do progresso individual, uma fonte inesgotável calórica que justificava o abandono de qualquer cautela ou sentido de vigilância mútua. O indivíduo, paralisado pela abundância fácil, isolava-se em seu próprio apetite, ignorando as oscilações térmicas e as correntes de ar que cruzavam o ambiente urbano moderno. Não havia planejamento, não havia coesão de grupo; havia apenas uma aglomeração fortuita de estômagos insaciáveis, devorando os despojos do desperdício humano. A cooperação delas limita-se à sinalização de que há comida disponível; uma vez no banquete, vigora a lei do mais forte. Portanto, o comportamento de uma barata é regido por um realismo utilitário e amoral: elas cooperam quando é vantajoso para a espécie, mas competem e se devoram de forma implacável quando o ecossistema aperta as regras da sobrevivência. Sob o império daquela fartura efêmera, a colônia de cascudas desarmava as suas defesas naturais, esquecendo que os territórios de fronteira, mesmo dentro do confinamento doméstico, não toleram a letargia ou o repouso egoísta dos que se julgam invulneráveis.
A virada trágica daquela jornada operou-se sem alardes ou ruídos teatrais, manifestando-se na precisão geométrica de uma linha preta que começava a serpentear a base do rodapé. Atraídas pelas mesmas emanações doces, as forças selvagens do formigueiro avançavam sob o prumo de uma disciplina férrea e inegociável. Centenas de formigas-lava-pés, coordenadas por um instinto comunitário absoluto e desprovidas de qualquer vestígio de egoísmo, marcharam em colunas milimétricas, subindo pelos pés do balcão. O contraste biológico impunha-se de forma brutal ao leitor atento: de um lado, o gigantismo desorganizado e medroso das baratas; do outro, a engrenagem coletiva, compacta e letal de um exército que transformava a cooperação cívica em arma de destruição. Quando a primeira cascuda sentiu a picada ácida em suas patas, o pânico biológico desestruturou o banquete.
O ataque das formigas deu-se com absoluto realismo e ferocidade cirúrgica. Elas não buscavam apenas o açúcar; disputavam o domínio soberano do território. Em segundos, milhares de pequenas mandíbulas cravaram-se nas articulações moles das baratas. O veneno injetado paralisava o sistema nervoso das gigantes, que começaram a se debater convulsivamente sobre a calda de chocolate, virando-se de pernas para o ar em uma agonia patética. O medo contagiou as sobreviventes, que tentavam escapar arrastando os corpos pesados e lambuzados, mas as colunas de formigas cobriam as saídas, escalando os olhos e as antenas das cascudas, mutilando-as em pleno voo abortado. O tabuleiro transformou-se em um abatedouro rústico. A solidariedade mecânica do formigueiro provou que a força do indivíduo é uma casca jurídica vazia quando confrontada com o rigor e a coesão de uma sociedade organizada. O dia amanheceu sob a luz fria da cozinha, revelando o tabuleiro limpo de doces e coberto pelas carcaças vazias das baratas, gravando na pedra da biologia a lição eterna de que a lambança e a fragmentação moral são os caminhos mais rápidos para a morte.
Adilson Carlos Furlan Silvestrim
Cadeira nº 40 da Academia Linense de Letras
Patrono: Fernando Pessoa
24/09/2026
