O Edifício da Imortalidade da Academia Linense de Letras encontra na Cadeira nº 37 um de seus pilares mais profundos, onde a história deixa de ser um mero depósito de datas para se converter em um manifesto vivo de justiça e estética, e celebrando-a como o santuário onde a justiça histórica e a herança filarmônica se fundem em imortalidade. A união entre o Patrono Vicente Rio Branco Paranhos (1874–1944) e o Membro Fundador José Roberto Franco da Rocha (1943) transcende a formalidade acadêmica; ela representa o ponto de maior relevância historiográfica e resgate patrimonial do Noroeste Paulista. Trata-se da "Simbiose Documental Perfeita": o maestro negro e pioneiro que ergueu a trilha sonora de Lins no mundo físico encontra, décadas depois, o pesquisador com o rigor da farda militar e a sensibilidade do artista, para arrancar seu nome do esquecimento e transmutá-lo em lei. Esta fusão de trajetórias evoca o compositor e pensador alemão Richard Wagner (1813–1883) amoldam-se com precisão absoluta. "A música é a linguagem que começa onde terminam as palavras, a força viva capaz de organizar o espírito coletivo e traduzir a essência de uma comunidade". Em Lins, essa ordem fez-se compasso, e a beleza fez-se cidadania.
A dimensão artística de Vicente Rio Branco Paranhos é a crônica de um gênio que desafiou o determinismo de sua época. Filho de escravos libertos e nascido no dia da Independência do Brasil, Vicente foi um polímata popular: dominava a dureza prática da alvenaria (pedreiro) e a leveza erudita do contraponto, da harmonia e da orquestração. Sua chegada ao antigo distrito de Albuquerque Lins culminou em um parto gêmeo e siamês no dia 21 de abril de 1920: nasciam, simultaneamente, o município de Lins e a sua Banda Municipal, sob a regência de sua histórica batuta. O mestre que construía casas com as mãos era o mesmo que desenhava no pentagrama arranjos de extrema delicadeza, para executar hinos complexos como o Kimigayo imperial japonês ou a revolucionária La Marseillaise [ROCHA, 2000]. Ele aplicava na prática o que o pensador e jurista pátrio Rui Barbosa de Oliveira (1849–1923) defendia: "A pátria não é ninguém: são todos; e a arte é o teto espiritual que abriga a todos sob a mesma igualdade". Vicente respondeu às segregações e aos preconceitos de seu tempo com a elegância de seus dobrados e com a nobreza de sua alma filantrópica, oferecendo abrigo e aulas gratuitas à infância desprovida no Bairro do Ribeiro.
A posteridade, contudo, foi marcada por um longo período de amnésia. Durante (56) cinquenta e seis anos, o nome do primeiro maestro negro de Lins foi negligenciado pelo poder público, até que a escrita rigorosa do Tenente-Coronel José Roberto Franco da Rocha operasse o milagre do resgate documental através de sua obra essencial A Banda Linense: 80 anos [ROCHA, 2000]. O fundador não apenas escreveu a crônica do patrono; ele compôs o dobrado Maestro Vicente Rio Branco Paranhos, convertendo a história em melodia viva. Uniu a disciplina da caserna, forjada na Academia do Barro Branco, à precisão da pesquisa histórica. Esse combate contra a amnésia social confirma a célebre máxima de Cícero: "A história é a testemunha dos séculos, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida e a mensageira do passado."
A atuação como regente e compositor de José Roberto não foi apenas um exercício lírico, mas um ato de Segurança Jurídica Cultural: organizou e registrou os Estatutos Sociais das bandas de Lins e Guaiçara, adequando-as ao Código Civil, e elaborou o novo arranjo para o Hino a Lins, imortalizado pela Lei Municipal nº 3.838 de 21 de março de 1996. A ação de José Roberto encontra eco no pensamento do mestre do Direito Moderno, Hans Kelsen (1881–1973), para quem a norma jurídica deve servir como o espelho da paz e da ordem social; na Cadeira nº37, a lei curvou-se à harmonia musical.
O encontro dessas duas biografias confere ao Memorial da ALL o status de um Supremo Tribunal da Memória Regional. O fundador não se limitou a biografar o patrono; ele transmutou a história em melodia viva ao compor o dobrado marcial Maestro Vicente Rio Branco Paranhos.
José Roberto compreendeu que a memória é uma trincheira de defesa da dignidade humana. Mesmo com todo esforço sobre a memória de Vicente e outros publicada em 2000, o poder público tornou indiferente e perdido por mais 22 anos o resgate biográfico do Maestro Vicente em Lins.
O ato de arrancar o mestre negro da poeira do esquecimento e inseri-lo de forma indelével na malha urbana setenta e oito anos depois de sua morte — condecorado postumamente por meio da Lei Municipal nº 7.455 de 16 de dezembro de 2022 — de iniciativa legislativa e chancelada pelo trabalho de Adilson Carlos Furlan Silvestrim — cumpre a premissa fundamental de Charles-Louis de Secondat (1689–1755), o Barão Montesquieu: "A história não se faz pelo mero acaso, mas pela inteligência que conecta as leis do passado ao espírito do presente; para conhecer o homem, é preciso iluminar a sua própria trajetória".
Na Cadeira nº37, as leis municipais e o arquivo acadêmico tornaram-se os instrumentos dessa inteligência, garantindo que o passado de Lins não seja uma sombra que se esconde, mas uma alvorada cívica de justiça e erudição que desperta a cidade. A ALL exerce o seu papel nobre de resgatar as pedras fundamentais da cultura paulista.
A importância artística da dupla reside na validação da premissa de que a educação e a arte são os únicos vetores capazes de promover a verdadeira emancipação social. Vicente utilizou os metais da banda para dar sustento e honra às famílias humildes de Lins; José Roberto utilizou a caneta e o arquivo para salvaguardar esse patrimônio imaterial para as futuras dinastias acadêmicas. Ambos demonstram que em Lins, a arte não aceita o desleixo; ela exige a disciplina do caráter. Esta fusão evoca o pensamento do filósofo Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844–1900): "A música é o esforço do homem para transformar o caos da vida em uma arquitetura de ordem e beleza."
Eles aplicaram, em épocas distintas, o preceito do educador Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997): "A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo". Na Atenas da Região do Noroeste Paulista, as pessoas mudadas pelo som do Conservatório e pelas retretas da Praça Joaquim Piza ajudaram a edificar uma civilização baseada no saber e no respeito mútuo.
Essa obra de edificação humana ganha contornos ainda mais profundos, quando contrastada com a dinâmica social proposta pelo historiador econômico Carlo M. Cipolla (1922–2000), em seu tratado sobre as Leis Fundamentais da Estupidez Humana. Cipolla alertava que a estupidez opera como uma força entrópica, um buraco negro que destrói a riqueza material, a paz civil e o progresso das nações ao causar prejuízos ao próximo e ao próprio agente, sem gerar qualquer ganho. Contra esse vetor de destruição pura, que se prolifera no vazio da linguagem e na apatia mental, a atuação da ALL impõe a sua força contracíclica. A educação artística promovida por Vicente e salvaguardada por José Roberto funciona como o antídoto definitivo para essa patologia social. Ela substitui o ruído destrutivo do absurdo pela precisão matemática do compasso e pela clareza da palavra empenhada, blindando a comunidade contra a decadência cultural.
Encerrar a análise lírica de Vicente testemunha o cumprimento da profecia de Antônio Frederico de Castro Alves (1847–1871), o Poeta dos Escravos, que em sua altivez romântica bradava aos céus versos que parecem ter sido escritos sob medida para a vitória de Vicente: "Ontem a horda rugia... hoje o herói canta! / Ontem o ferro de escravo... hoje o louro de glória! / Deus é grande! a justiça caminha / Pelo sulco que abre a vitória!". O ferro do cativeiro e a lama do esquecimento foram definitivamente vencidos pelo bronze das leis e pelo ouro das partituras guardadas neste sodalício.
A Academia Linense de Letras resguarda na Cadeira nº37 a prova inabalável de que a literatura, a música e a jurisprudência são forças indissociáveis na construção de uma nação livre. O resgate monumental destas biografias, capitaneado pela pesquisa de Silvestrim e pela herança literária de Franco da Rocha, sob as luzes da veridicidade histórica, assegura que a batuta e a pena permaneçam eternamente unidas em legítima, soberana e imortal harmonia nas páginas da história de Lins. Que os futuros ocupantes desta cátedra olhem para o frontispício com a Lira Romana desenhada por Vicente e saibam que herdam um legado moldado pela coragem, pela ciência documental e pela paixão indomável pelo progresso humano. Dado e encerrado sob as luzes da verdade histórica, onde a batuta e a pena permanecem eternamente unidas em legítima e soberana harmonia.
Adilson Carlos Furlan Silvestrim,
Cadeira nº40, cujo Patrono é Fernando Pessoa
Academia Linense de Letras - 13/05/2026
