Fonte: Arquivo de José Roberto Franco da Rocha Photoshop e Restauração: Paulo Sérgio Lousano - 2020
O tecido da história brasileira é bordado com os fios da dor, mas também com os da mais sublime superação. No coração da Cadeira nº 37 da Academia Linense de Letras, a memória de Vicente Rio Branco Paranhos (1874–1944), ergue-se como um farol de dignidade humana e rigor estético ocorrido em Lins.
Vicente Rio Branco Paranhos nasceu em São Luís do Paraitinga, SP, no dia 7 de setembro de 1874. Era filho da escrava Fausta. Foi beneficiado pela Lei do Ventre Livre nº 2.040, e foi promulgada e publicada em 28 de setembro de 1871. Assinada pela Princesa Isabel, a norma decretou a liberdade para filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data, marcando um avanço gradual no processo abolicionista brasileiro. Principais Pontos de Alcance da Lei: Considerava livres os filhos de mulher escrava nascidos a partir da data, e os filhos libertos ficavam sob a tutela dos proprietários até os 8 anos ou podiam ser entregues ao Estado. A lei também ficou conhecida como Lei Rio Branco, por ter sido proposta pelo Visconde do Rio Branco, um reconhecimento político e social por ele ter liderado o gabinete ministerial na época.
Vicente cresceu à sombra da expansão cafeeira no Vale do Paraíba, testemunhando a agonia de um sistema que insistia em mercantilizar a carne humana, mas sua trajetória rompeu o determinismo do açoite.
A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, pela Princesa Isabel, não foi apenas um ato jurídico de abolição formal; foi o romper de diques que permitiu a homens como Vicente demonstrar que a aristocracia do talento independe da cor da pele. O fim da escravidão no Brasil abriu clareiras para que o gênio criador do negro ocupasse os espaços públicos da República que nascia. Vicente, dotado de uma vivacidade e inteligência precoces, fez das primeiras letras e do aprendizado musical o seu passaporte para a liberdade real. O jovem que aprendeu a domar a técnica dos sopros e das cordas nos rincões de São Luís do Paraitinga compreendeu, desde cedo, o que o abolicionista Joaquim Nabuco profetizara: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. É preciso educar para emancipar".
No som e na matéria, Vicente educou-se. Polímata por natureza, dominou a precisão da alvenaria e a erudição do contraponto. Diante do declínio do Vale do Paraíba, retratado com amargura nas Cidades Mortas de Monteiro Lobato, o maestro seguiu a rota do progresso em direção ao Oeste Paulista. Sua chegada a Lins em 1919 coincidiu com a própria aurora do município; o santuário onde a história do negro liberto encontra a certidão de nascimento de uma cidade, que se desenhava na Noroeste Paulista e precisava de infraestrutura, mas necessitava, acima de tudo, de uma alma. E a alma de Lins foi esculpida pelo sopro dos metais de Vicente Rio Branco Paranhos. Excelente trompetista!
1920 marca o ano de nascimento de dois irmãos siameses: o município de Lins e a sua Banda Municipal. Convocado pelas lideranças políticas da época, que enxergaram no "negro determinado e polido" a envergadura necessária para capitanear a identidade cultural da terra prometida, Vicente assumiu o posto de fundador e primeiro maestro da corporação filarmônica. No dia 21 de abril de 1920, às 13 horas, enquanto os primeiros vereadores tomavam posse sob a gestão do Dr. Urbano Telles de Menezes, a batuta de Vicente cortava o ar em frente à Câmara Municipal. Naquele exato instante, o filho de escravos libertos tornava-se o maestro regente da civilização linense.
A importância de Vicente para Lins extrapola as fronteiras da musicologia; ela reside no campo da pedagogia social. O maestro que enfrentou o preconceito velado que segregava o seu reduto na Vila Ribeiro, rotulado pejorativamente como a "banda dos negros" em oposição à banda dos brancos da praça central, que respondeu com a mais pura elegância clássica. Ele não tolerava o desleixo técnico, exigia postura impecável de seus músicos e proibia o inflar de bochechas nos sopros, antecipando uma estética de conservatório no interior profundo do Estado. Mais do que isso, Vicente abriu as portas do porão de sua casa e de seu conhecimento para as crianças carentes, ensinando-lhes música gratuitamente, para que tivessem um ofício digno e pudessem sustentar suas famílias.
Ao traduzir a complexidade de hinos internacionais como La Marseillaise ou a delicadeza instrumental do Kimigayo japonês, Vicente inseriu Lins na rota do cosmopolitismo cultural. O homem que assentava os tijolos do progresso urbano durante o dia era o mesmo que, à noite, desenhava no pentagrama a trilha sonora do civismo local. Sua atuação foi eternizada na aquarela de Teisuke Kumasaka em 1928.
A Cadeira nº 37, inaugurada sob a lavra do historiador e músico José Roberto Franco da Rocha, celebra o triunfo definitivo da resiliência sobre a opressão. Vicente Rio Branco Paranhos habita o Edifício da Imortalidade da Academia Linense de Letras como a prova viva de que a batuta de um maestro negro foi forte o suficiente para reger a história, vencer as mordaças do passado e gravar o seu nome, com letras de ouro, na certidão de nascimento da Atenas da Região do Noroeste Paulista. Sua jornada evoca os versos imortais de Castro Alves, o Poeta dos Escravos, que no eco de sua Saudação a Palmares bradava:
"Ontem a horda rugia... hoje o herói canta! / Ontem o ferro de escravo... hoje o louro de glória! / Deus é grande! a justiça caminha / Pelo sulco que abre a vitória!"
No solo de Lins, o ferro do cativeiro que outrora marcou sua linhagem converteu-se de forma indelével no bronze dos monumentos e no ouro de sua herança artística. O clamor das correntes do passado emudeceu para dar lugar à sinfonia cívica que o mestre regeu em 21 de abril de 1920. O contraponto ao homem negro liberto que agora ascende como um herói vitorioso por meio da arte e da dignidade. Protegido contra o esquecimento pela Lei Municipal nº 7.455/2022, e imortalizado pelo resgate documental do acadêmico Adilson Carlos Furlan Silvestrim, Vicente não é apenas o primeiro maestro da Banda Linense; ele é o eterno sentinela da dignidade humana, cujo compasso continua a vibrar nas esferas mais puras da história da nossa terra.
Adilson Carlos Furlan Silvestrim,
Cadeira nº40, cujo Patrono é Fernando Pessoa
Academia Linense de Letras
11/05/2026
